Return to site

BID lança programa para atacar racismo no empreendedorismo brasileiro

BID identifica barreiras enfrentadas por negros no acesso a capital a ser usado na abertura de novos negócios no País

De cada dez empreendedores negros ativos no Brasil, nove ocupam a base da pirâmide do empreendedorismo. De acordo com dados coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2013, existiam 11 milhões de negros proprietários de empreendimentos, sendo que pouco mais de 1 milhão deles efetivamente contavam com pelo menos um funcionário.

Esse número, segundo Luana Marques, que dirige o departamento de fomento ao empreendedorismo entre minorias na América Latina e região do Caribe no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), denota que as empresas criadas por negros são alvos de preconceito racial. “É um número muito baixo de empreendedores se observarmos que estamos falando de um universo de 11 milhões de indivíduos, uma parcela ínfima entre os empresários. Isso acontece porque eles não conseguem ter acesso ao mercado de capitais e ficam fora da maioria das rodadas de negócios. Existe uma forma velada de preconceito”, diz.

Ela reforça, ainda, que a obtenção de crédito é um problema comum entre os empreendedores brasileiros mas, no caso das empresas gerenciadas por negros, existem barreiras adicionais. “Acesso a financiamento e (ter) as capacidades de gerir um negócio seguem como entraves. Contudo, os afrodescendentes muitas vezes enfrentam obstáculos a mais em decorrência de arranjos discriminatórios históricos”, analisa.

Para tentar atenuar esse quadro, o BID criou um projeto de fomento batizado de Inova Capital – Programa de Apoio a Empreendedores Afro-Brasileiros. A iniciativa tem como meta criar um ambiente de aceleração que favoreça novos negócios cujos donos sejam negros e visa aproximar esses empreendimentos de potenciais investidores. Com um investimento modesto, de R$ 1,6 milhão, o programa oferecerá ainda cursos de capacitação em gestão. A Endeavor e o Sebrae, entidades também ligadas ao empreendedorismo no Brasil, serão parceiras do programa arquitetado pelo BID em áreas como capacitação e logística.

O ambiente que o banco almeja criar surge para preencher lacunas observadas após pesquisas feitas sobre o empreendedorismo nacional e sua relação com as políticas públicas e a iniciativa privada. O que o levantamento constatou, segundo a executiva do BID, é que as ações que existem hoje com origem na esfera pública não têm se mostrado eficazes para aproximar empreendedores negros de investidores.

Matheus da Silva Cardoso, fundador da Moradigna, startup de reformas populares, afirma que a presença de negros em pitches (disputas por rodadas de investimentos e aceleração) é rara. “Recorri, sem sucesso, ao crédito em bancos de varejo no começo da empresa, mas isso é algo que acontece com todos. Nas rodadas de negócio, no entanto, é muito difícil ver negros participando, quanto mais seguindo adiante nas fases finais de aceleração”, conta.

Na mesma linha, Alyne Garcia Jobim, fundadora da Integrare, uma consultoria de recursos humanos para portadores de deficiências físicas, conta que faltam exemplos de relacionamento. “É pouca a presença neste ambiente porque muitos não possuem contatos que os levem até os recursos”, diz.

Juliano Seabra, diretor-geral da Endeavor no País, destaca que não há suporte ao dono de negócio que não consegue entrar no circuito de investimentos que engloba startups. Segundo ele, existe um perfil de empreendedor que não condiz com a realidade brasileira. “Existe preconceito. O mundo empresarial tem uma imagem de que o empreendedor é branco, possui ensino superior e fala diversos idiomas, por exemplo. A realidade, na prática, é outra”, diz. “De um lado temos um sistema que não dá suporte, que repele as minorias de se misturar a um mainstream.”

Os números que sustentam a tese do BID são parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2013 realizada pelo IBGE. A análise dos dados mostrou, também, que do o total de 11,8 milhões de negros empreendedores, pouco mais da metade deles (54%) têm no máximo o ensino fundamental completo ou incompleto e 5% têm ensino superior completo ou mais. Entre os empresários brancos, a parcela de gestores que cursaram ensinam superior, e concluíram a graduação, é de 19%, de acordo com o IBGE.

Fonte: http://pme.estadao.com.br/noticias/pme,programa-tenta-diminuir-preconceito-nas-empresas,20000000193,0.htm

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly